Vi, ouvi e vivi

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Nunca tive uma ligação muito forte com a música. Minha memória musical é fraca para associar compositores e cantores a músicas conhecidas. Mas posso dizer que servem de marcos em passagens das quase 6 décadas de vida.

Minha infância foi totalmente marcada pelos Beatles e a Turma do Iêiêiê de Roberto Carlos & Cia. Subíamos no muro de casa empunhando instrumentos de brinquedo e cantávamos no palco improvisado. Meu pai que era 27 anos mais velho que eu, adorava Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, mas ouvia também, ao final da década de 60, Paulinho da Viola, Elis Regina, Simonal e Jair Rodrigues. Era o tempo dos grandes festivais. Até aqui a minha vida era de rótulo de margarina.

No início dos anos 70 fui morar no Rio ouvindo Elton John com Rocket Man e Goodbye Yellow Brick Road. E quando passei no vestibular, no final de 75 em Recife, já estava me ligando em Pink Floyd, Yes, The Who, Jethro Tull, Deep Purple, David Bowie, John Lennon e Rolling Stones. Tempo que não tinha videocassete, nem DVD, fui ao cinema 6 vezes assistir “The song remains the same” com Led Zeppelin. Nesse período, por influência de um primo cearense querido conheci Fagner, Ednardo e Belchior. Fui a shows de Rita Lee, Milton Nascimento e Gal Costa. Nesse período, passagem de adolescente para rapaz, descobri os prazeres do sexo e de viajar.

Os anos 80 entram na minha vida com Dire Straits, Genesis, Paralamas, Barão Vermelho, Capital Inicial e Djavan. Foi nesse período que descobri a vida como ela é, onde aconteceu um pouco de tudo. Experimentei drogas, me casei 2 vezes, nasceu primeira filha, fiz amigos que duram até hoje e cometi erros, alguns que me custaram certa estagnação profissional.

Em 92 comecei minha carreira de publicitário ao som de Eric Clapton, Seal, U2, Lobão, Lulu Santos e Skank. Depois que nasceram os três filhos foi que passei a gostar de jazz e blues, e aqui minha memória musical me trai, ninguém para citar. Período de reconstrução da minha identidade profissional.

A virada do século me apresentou a morte de perto. Foi nessa época de prosperidade fácil que falhei como companheiro para quem me amou. Me permiti em demasia, o que nem sempre é saudável para as relações afetivas, mas também chorei pela primeira vez. Tudo isso ao som de Diana Krall, Norah Jones, Ivete, Jota Quest e Cidade Negra.

Nos últimos anos estou mais eclético, ouvindo os mesmos músicos dos anos anteriores, mas também me divertindo com as novidades instantâneas e descartáveis. Como digo sempre não limite sua felicidade, estabelecendo inúmeros filtros. O amor existe, seja apenas condescendente consigo. Tenho dedicado tempo a me conhecer e, consequentemente, a entender o que me cerca. Amadurecendo, antes do inevitável apodrecer.

Concluo com um trecho de “Amor pra Recomeçar” de Frejat, “desejo que você tenha a quem amar, e quando estiver bem cansado, ainda exista amor pra recomeçar”.

Músicas são âncoras da nossa existência. Quais as suas?