Ainda é cedo ou Nunca é tarde?

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Pouca gente sabe, mas há 15 anos passei um perrengue grande. Ao final de 2002, após 10 anos em João Pessoa decidimos, Márcia, filhos e eu, voltar a Maceió. Era quase Natal, dia 21 de dezembro, pegamos estrada para mais um período de moradia na capital alagoana. Foi um consenso, o país não estava numa boa fase, nós muito menos. Nível de stress alto em função da falta de grana e os projetos profissionais estarem patinando.

Naquele sábado quente de dezembro, chegamos no meio da tarde na casa do casal de cunhados Mércia e Fernando que nos acolheram muito bem como de costume. Conversamos, comemos e bebemos sobre planos e dificuldades. Noite agradável que não antevia os próximos acontecimentos.

Quem conhece Maceió, desde aquela época, sabe que o domingo na Ponta Verde tem um encanto próprio para as famílias. O trânsito é fechado a partir das 7 da manhã até às 18 horas. Lá armam-se barracas de jogos infantis, triciclos e bicicletas para alugar, skates, patins, banda da Polícia Militar toca músicas para a galera da maturidade dançar. Tudo isso sem falar dos bares e restaurantes que existem desde sempre por lá. Sempre diversão garantida para todas idades.

Fomos com as crianças passar o domingo nesse espaço ao ar livre, pois o dia seguinte seria o primeiro do resto de nossas vidas. E, de fato, tudo transcorreu da melhor forma possível. Os filhos estão com 9, 8 e 7 anos junto com os dois primos de idades semelhantes cansaram os pais no sol escaldante. Claro que esses se valeram do recurso de beber algumas gelas para aliviar. Cumprimos todo ritual da cidade, finalizando o dia indo almoçar no excelente Divina Gula. Lá comemos tutu a mineira, pão de alho, arroz de frango e outros quitutes que só ali tem.

Evidente, que a noite foi finalizada com pizzas e coca 2 litros. Antes das 22 horas todos já estavam dormindo ao fim do excelente domingo. Próximo das 23 horas acordei com a garganta seca e fui à cozinha beber água. Após beber um copo, senti uma fraqueza intensa e fui desmoronando, ao mesmo tempo que um líquido escuro escorria na pressão por cima e por baixo. Cai sentado no meio da poça e não tinha sequer força para me levantar. Ao mesmo tempo envergonhado com a sujeira que tinha provocado e por não querer acordar ninguém.

Passaram alguns longos minutos, consegui me levantar e chegar ao banheiro. Me sentei embaixo do chuveiro, me lavei, reuni minhas forças, fui até Márcia e avisei da sujeira na cozinha. Enquanto ela e Fernando limpavam tudo, fui novamente ao banheiro despejar o que ainda tinha dentro de mim. A cor escura me remeteu ao maravilhoso tutu que havia saboreado à tarde. Mas, Fernando que já havia, recentemente, socorrido alguém, alertou que poderia ser uma hemorragia, pois havia conseguido identificar coágulos na sujeira espalhada pelo chão

Um fato interessante a pontuar é que não sentia nenhum desconforto e nenhuma dor, apenas faltava força para ficar em pé. Isso se confirmou no elevador do prédio quando decidimos ir ao hospital. Apenas 2 andares e as pernas já me fizeram sentar nos calcanhares escorregando as costas no espelho. Lembro que era uma noite fresca, janela do carro aberta sentia o vento e nem imaginava o que as próximas horas me reservavam.

Na emergência do hospital, após verificar a pressão sanguínea, o médico de plantão me informou que a mesma estava 4/0. Já foi me dizendo que estava com uma hemorragia estomacal e me perguntando se não havia percebido nada de anormal nos últimos dias. Respondi que estava com diarreia escura, mas de resto estava bem. Ele retrucou afirmando que seria sangue coagulado e que eu deveria ter alguma úlcera que perfurara. Imagina só a situação, sentado na frente de uma escrivaninha de hospital, o médico te informando que você já está quase morto, que vai te internar numa UTI, enquanto o médico endoscopista não chega. Eu que imaginava o dia seguinte como o primeiro do resto das nossas vidas, não desejava que fosse em outro mundo.

Me deslocaram para UTI para esperar o procedimento exploratório para tentar estancar a hemorragia, pois se não obtivesse sucesso, o plano B, sempre tem um, seria uma cirurgia para abrir a barriga. Aguardando o médico, escutando a trilha sonora dos equipamentos que dão sobrevida aos enfermos e sentindo a respiração forçada das pessoas, comecei a refletir como tinha sido minha vida até então. Foi ali no leito de quase morte, por mais de uma hora recebendo sangue e plasma, que prometi a mim que se conseguisse sair iria retomar o controle da pauta da minha existência.

Enfim, o médico conseguiu estancar o sangramento e me recomendou que após alguns dias fizesse um novo exame para retirar um fragmento para identificar a bactéria que teria se instalado no estômago. Mas toda história dramática tem seu lado engraçado. Por volta das 5 da manhã, a enfermeira intensivista veio me explicar como era o procedimento na UTI, horários de visitas, passagem do médico, botão da campainha e talz. Mal ela terminou as explicações, perguntei se estava ainda correndo risco de vida. Ela toda simpática diz “claro que não”, eu alerto em contrapartida que deveria ser transferido o mais rápido possível para um apartamento, pois não tinha plano de saúde e o cheque da caução que entregara na recepção não teria fundos. Sangue frio ou falta dele? Acho que segunda opção, pois ainda estava sendo recarregado.

Posso dizer que após alguns dias no apartamento para o qual me transferiram imediatamente, me recuperei, sai do hospital, me tratei e me cuidei de uma forma que nunca mais tive nem azia, curado mesmo. E, claro, 2003 foi o primeiro ano de um novo ciclo.

Quando tudo aconteceu, tinha pouco mais de 44 anos. Agora me aproximo de completar 60 anos. O que de fato mudou na minha vida nesse período?

Nada de ruim é para sempre, leveza em primeiro lugar. As maiores batalhas não são contra supostos inimigos, elas acontecem somente na sua mente, alucinando sobre possibilidades. Assim, descubra seu verdadeiro eu, sua essência, suas habilidades. Alinhar propósito e missão de vida sem agredir o ambiente em que vive. Dar antes de receber, o bem atrai o bem. A seguir, agregue bons hábitos para si. Atividade física frequente, nem precisa se matar, apenas aumentar o batimento cardíaco e queimar algumas calorias. Banhos de sol diários por 15 minutos, sem bloqueador solar, entre 11 e 1 da tarde.  Meditar, que nada mais é do que exercício de respirar e pensar no agora. Comer comida de verdade: mais fibras, proteínas naturais, legumes, frutas e verduras, menos sal, açúcar e alimentos industrializados.

Parafraseando o poeta Renato Russo na música “Ainda é cedo”, Nunca é tarde. Dizem que todo mundo precisa de um motivo doloroso para mudar de vida. Será?!?!