A primeira vez que chorei

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Na verdade, fui um menino bem chorão até os 11 anos. Qualquer coisa que me acontecia na rua ou na escola ia correndo para a barra da saia da D. Benélia, minha mãe protetora dos filhos oprimidos. Por isso, esse período sem pelos não é considerado.

Nessa idade, fomos morar em Recife e estudar no Colégio Militar. Foram 6 anos entre o CMR e CMRJ, sediado no Rio. Lá aprendi que não se chora à toa, que nem tudo é para ir buscar auxílio da mamis. Levei muito a sério esse treinamento e nunca mais chorei.

Quando digo que isso não é força de expressão, o papo é sério. Foi tão marcante que minha família já me justificava alegando que “Zeh é muito seco”, eufemismo para dizer que eu era frio mesmo. Pelo que consigo me lembrar, no início ainda engolia o choro, nó na garganta de leve e conseguia o objetivo. Com o passar do tempo já usava vários truques. Se fosse um filme emocionante, a razão entrava em ação e me conscientizava que era uma obra de ficção com atores e que nada daquilo estaria acontecendo de fato. Ao ler uma notícia procurava me distanciar do drama. Lendo um livro, dava uma parada para respirar e beber água.

Quando a notícia era do falecimento de alguém da família, o máximo de (in)expressão era travar os músculos da face, que nem a boca abria. É verdade, também, que ninguém do núcleo duro familiar se foi nesse período estéril de lágrimas.

Mas, tudo tem uma primeira vez. E isso aconteceu assistindo ao filme “7 vidas (seven pounds)” com Will Smith, ao final de 2008 já com 50 anos. Para quem não assistiu, vou transcrever a sinopse de Adoro Cinema: “Ben Thomas (Will Smith) é um agente do imposto de renda que possui um segredo trágico. Por conta disso, ele é um homem que tem um grande sentimento de culpa, o que faz com que salve as vidas de completos desconhecidos. Porém, tudo muda quando ele conhece Emily Posa (Rosario Dawnson), pela primeira vez é Ben quem tem a chance de ser salvo“.

Pensando bem, comparado com outros que assisti ao longo de quase seis décadas, nem é o filme mais emocionante. Mas, de alguma forma, uma chave foi virada. E ali, lentamente, fui me abrindo ao choro espontâneo e verdadeiro. Inicialmente, tentando controlar, enxugando uma lágrima no canto de olho, ou ficando calado por um período para recuperar o tom normal da voz.

Faz quase 10 anos. E, até hoje, posso dizer que tem sido uma curva exponencial. Me permito chorar sozinho ou na presença de outros, a qualquer momento e por qualquer motivo. Ouvindo um relato em algum podcast, vendo filmes ou um depoimento numa palestra, tudo pode me fazer chorar.

Outro dia, durante uma DR, Dulce reclamava de alguma falta de ação profissional minha, mas para separar esse assunto da vida afetiva afirmou que não tinha do que reclamar da vida a dois. Isso já foi suficiente pro véio aqui se derreter em lágrimas.

Hoje, estava ouvindo um podcast, durante a viagem de volta do final de semana, com a leitura de uma carta de um homem que a esposa tinha se curado de câncer a partir do tripé Ciência, Fé e Atitude. Claro que me desmanchei.

A quem não costuma chorar, só digo uma coisa. Chorar é libertador!

E você, vai esperar também 50 anos para exercer esse direito?